Mulheres verdadeiramente de Teatro - por Rafael Masini

 

Atenta ao espelho, aquela mulher, com delicadeza, contorna os olhos com lápis preto. Concentrada, olhar fixo, correndo junto ao lápis, o roteiro. Passo a passo, entradas e saídas, um texto com quem ela se casou por seis deliciosos meses. Porque essa mulher de teatro é apaixonada pela vida, faz dela sua grande arte. Não lhe escapa nenhum detalhe, observação a cada instante. Sabe quando o vento lhe sopra o cabelo, quando um livro a emociona, quando uma poesia lhe destrava a alma. Essa mulher verdadeiramente de teatro abstrae fofocas, despreza a insensibilidade e o preconceito. Sabe, sim, ser vaidosa. Mas, feminina, ela sabe que a mulher tem que lutar por seu espaço – e não se transforma em um homem por isso. É delicada, apesar das mãos rudes, pois quando ela é verdadeiramente de teatro, não foge do batente, ergue cenários afina refletores, organiza o figurino, digita o roteiro, chora no final da temporada. Ela sabe amar com profundidade e verdade como pede Rilke, respeitando-se a si mesma. Diverte-se com Suassuna e Molier, casaria mil vezes com os poemas de Vinicius e com as músicas do Chico. Lambuza-se diariamente com Cecília. Essa mulher verdadeiramente de teatro, desliga a TV pra escutar Gardel e vai à Bienal, à sala São Paulo... E, sem dinheiro, caminha no parque, lê no Jardim Botânico. Não tem vergonha de chorar suas tristezas, de gritar seus amores, de se deixar amar por quem realmente lhe deseja amar. E quando a cortina fecha, ela ainda terá a força de Antígone e a teimosia de Hécuba. Suas unhas podem estar com esmalte, mas também com graxa. Sempre prontas para afagar uma cabeça carente e esbofetear um rosto cafajeste, pois mulheres de teatro montam Brecht e Marina Colasanti, sabem dosar no álcool -- seus sentidos são sua essência e nada pode destruí-los ou desestabiliza-los. As mulheres de teatro são altas e baixas, gordas e magras, elas são apaixonantes e apaixonadas, são criativas e/ou redundantes, erram, caem, xingam e brilham. Mulheres verdadeiramente de teatro nos tiram o sono, são indizíveis e indescritíveis. Nos fazem errar no português, na pontuação, nos fazem escrever textos intermináveis sobre a sua magia em carne e osso. Elas nos fazem sentir ridículos tentando escrever sobre elas e ao mesmo tempo nos instigam a digitar sem parar, a desenhá-las até acabar o grafite. As mulheres verdadeiramente de teatro nos confundem com a sua clareza e a sua magnífica interpretação. Decoram no ósseo e improvisam no tic-tac. Mulheres verdadeiramente de teatro me recordam todos os dias que Deus realmente existe e que o diabo, bom esse coitado jamais criaria algo assim.

"Bem que se quis" ... uma biografia - Página pessoal em permanente construção.

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