O Duplo

Debaixo de minha mesa

tem sempre um cão faminto

-que me alimenta a tristeza.

Debaixo de minha cama

tem sempre um fantasma vivo

-que perturba quem me ama.

Debaixo de minha pele

alguém me olha esquisito

-pensando que eu sou ele.

Debaixo de minha escrita

há sangue em lugar de tinta

-e alguém calado que grita.

Carta aos Mortos

Amigos, nada mudou

em essência.

Os salários mal dão para os gastos,

as guerras não terminaram

e há vírus novos e terríveis,

embora o avanço da medicina.

Volta e meia um vizinho

tomba morto por questão de amor.

Há filmes interessantes, é verdade,

e como sempre, mulheres portentosas

nos seduzem com suas bocas e pernas,

mas em matéria de amor

não inventamos nenhuma posição nova.

Alguns cosmonautas ficam no espaço

seis meses ou mais, testando a engrenagem

e a solidão.

Em cada olimpíada há récordes previstos

e nos países, avanços e recuos sociais.

Mas nenhum pássaro mudou seu canto

com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,

relemos o Quixote, e a primavera

chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas

se perderam.

Ninguém mais coloca cadeiras na calçada

ou toma a fresca da tarde,

mas temos máquinas velocíssimas

que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros

e a formação das galáxias

não avançamos nada.

Roupas vão e voltam com as modas.

Governos fortes caem, outros se levantam,

países se dividem

e as formigas e abelhas continuam

fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,

discutimos futebol na esquina

morremos em estúpidos desastres

e volta e meia

um de nós olha o céu quando estrelado

com o mesmo pasmo das cavernas.

E cada geração, insolente,

continua a achar

que vive no ápice da história.

Fascínio

Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.

Não deveria, dizem.

Me esforço. Aliás,

já nem me esforço.

Abertamente me ponho a admirá-las.

Não estou traindo ninguém, advirto.

Como pode o amor trair o amor?

Amar o amor num outro amor

é um ritual que, amante, me permito.

Amar a Morte

Amar de peito aberto a morte.

Não de esguelha, de frente.

Amar a morte,

digamos,

despudoradamente.

Amá-la como se ama

uma bela mulher

e inteligente. Amá-la

diariamente

sabendo que por mais

que a amemos

ela se deitará

com uns e outros

indiferente.

"Affonso Romano de Sant´Anna"

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